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Sulfadiazina de prata e Dermazine: como a síntese nacional mudou o tratamento de queimaduras graves

Por Luis Eduardo da Cruz8 min de leituraCiência Aplicada
Página da revista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica com a matéria 'Sulfadiazina de Prata: da farmácia artesanal ao produto de referência nacional', com foto de Luís Eduardo da Cruz e imagem da bisnaga do creme.
Imagem: matéria “Sulfadiazina de Prata: da farmácia artesanal ao produto de referência nacional”, publicada na revista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (seção Ciência Aplicada, p. 50–51).

Em 1984, ainda estudante, Luís Eduardo da Cruz estagiava no Centro de Queimados do Hospital do Andaraí, no Rio de Janeiro, quando observou algo que mudaria a vida de milhares de pacientes — e também a sua própria trajetória: alguns pacientes queimados evoluíam clinicamente muito melhor do que outros. A diferença estava em um antibiótico tópico importado dos Estados Unidos, formulado com sulfadiazina de prata.

Sulfadiazina de prata, Dermazine e a cirurgia plástica

A trajetória da sulfadiazina de prata no Brasil está registrada na revista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, publicação que reúne especialistas dedicados à recuperação funcional e estética de pacientes com lesões cutâneas graves. Na cirurgia plástica e reconstrutiva, o controle da infecção e a qualidade da cicatrização são etapas tão importantes quanto o ato cirúrgico em si. É nesse cenário que o Dermazine — creme de sulfadiazina de prata desenvolvido por Luís Eduardo da Cruz — se consolidou como recurso adjuvante no manejo de queimaduras, escaras, feridas cirúrgicas complicadas e outras lesões de difícil cicatrização.

O que é a sulfadiazina de prata e por que ela funciona em queimaduras

A sulfadiazina de prata é um agente antimicrobiano de amplo espectro de uso tópico. Sua ação combina o componente sulfamídico com a prata iônica, ativa contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, incluindo Pseudomonas aeruginosa — uma das principais ameaças infecciosas em pacientes que sofreram queimaduras extensas.

Em uma queimadura grave, a pele perde sua função de barreira. A infecção da ferida é uma das causas mais frequentes de complicação, sepse e mortalidade. Controlar a colonização bacteriana do leito da lesão é, portanto, condição para que a cicatrização avance e para que enxertos tenham chance de pegar.

Da farmácia artesanal ao produto de referência nacional

Farmacêutico-bioquímico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luís Eduardo da Cruz lembra que, naquele momento, o Brasil ainda não possuía uma formulação nacional do composto. Ele enxergou ali tanto um problema clínico real quanto uma possibilidade concreta de solução.

A decisão de sintetizar quimicamente a molécula no país surgiu como consequência natural da observação feita no hospital. “Mas é preciso ser honesto sobre o que isso significou na prática: o primeiro laboratório foi uma pequena farmácia”, relembra.

Foram necessários o desenvolvimento de 18 lotes de formulação e cerca de 36 meses de trabalho até alcançar uma composição segura e reprodutível. “Estabilidade físico-química em meio aquoso, biodisponibilidade tópica adequada, tolerância em pele comprometida: cada variável tinha que ser dominada”, detalha.

Validação científica e nascimento do Dermazine

A validação científica da formulação ocorreu no Instituto de Microbiologia da UFRJ, responsável pelos testes de atividade antimicrobiana. Essa etapa foi determinante para consolidar a credibilidade do projeto, que se tornou um creme de referência nacional para o tratamento de queimaduras.

“Em 1986, a síntese estava concluída e o Dermazine — nome comercial da sulfadiazina de prata — nasceu com respaldo científico desde a origem”, conta.

Onde o creme é utilizado hoje

Ainda que destaque o amplo histórico de segurança e eficácia do creme, Luís Eduardo reforça que qualquer medicamento deve ser utilizado sob orientação médica. O produto pode ser empregado em diferentes tipos de feridas:

  • queimaduras de segundo e terceiro graus;
  • escaras e lesões por pressão;
  • úlceras cutâneas crônicas;
  • feridas cirúrgicas com risco de contaminação.

Décadas depois, ele define a trajetória do fármaco como a demonstração de que a associação entre observação clínica e rigor científico pode gerar impacto duradouro na recuperação de pacientes com lesões graves.

Do medicamento à indústria: a origem da Silvestre Labs

“Mas o que mais me orgulha é o que veio junto: o projeto deu origem à Silvestre Labs, uma indústria farmacêutica brasileira”, relata. Aquela curiosidade que surgiu à beira de um leito hospitalar nos anos 1980 foi capaz de se transformar em empresa, empregos e acesso ampliado ao tratamento para pacientes em todo o país.

Método, paciência e tolerância ao erro

Ao olhar para a própria trajetória, o cientista deixa uma reflexão voltada às novas gerações de pesquisadores e profissionais da saúde. Para ele, transformar uma observação clínica em um produto disponível no mercado exige método, paciência e tolerância ao erro.

“Dezoito lotes fracassados não são derrotas, são dados”, afirma. O verdadeiro obstáculo, acrescenta, não está na dificuldade técnica, mas na pressa por resultados sem estrutura para sustentá-los. “Comece pelo problema real, o resto é processo”, finaliza.

Perguntas frequentes

O que é sulfadiazina de prata?
É um agente antimicrobiano tópico de amplo espectro que combina sulfadiazina e prata iônica. É usado principalmente no tratamento de queimaduras para controlar a colonização bacteriana do leito da ferida, incluindo bactérias como Pseudomonas aeruginosa.
Para que serve o Dermazine?
Dermazine é o nome comercial do creme de sulfadiazina de prata desenvolvido no Brasil. É indicado, sob orientação médica, para queimaduras, escaras, úlceras cutâneas e feridas cirúrgicas com risco de infecção.
Quem sintetizou a sulfadiazina de prata no Brasil?
O farmacêutico-bioquímico Luís Eduardo da Cruz, formado pela UFRJ, sintetizou quimicamente a molécula no país após observar, em 1984, a evolução superior de pacientes queimados tratados com o produto importado no Hospital do Andaraí.
Quanto tempo levou o desenvolvimento do Dermazine?
Cerca de 36 meses e 18 lotes de formulação até se obter uma composição segura e reprodutível. A síntese foi concluída em 1986, com validação de atividade antimicrobiana no Instituto de Microbiologia da UFRJ.
Por que a sulfadiazina de prata é importante em queimaduras graves?
Porque a queimadura destrói a barreira cutânea e a infecção é uma das principais causas de complicação e mortalidade. O controle antimicrobiano tópico do leito da lesão é condição para a cicatrização avançar e para o sucesso de enxertos.
Qual a relação entre o Dermazine e a Silvestre Labs?
O projeto de síntese da sulfadiazina de prata deu origem à Silvestre Labs, indústria farmacêutica brasileira fundada a partir daquele desenvolvimento, ampliando o acesso ao tratamento em todo o país.
Qual é o papel da sulfadiazina de prata na cirurgia plástica?
Na cirurgia plástica e reconstrutiva, a sulfadiazina de prata — comercializada como Dermazine — é usada como adjuvante tópico no manejo de queimaduras, escaras, feridas cirúrgicas complicadas e lesões de difícil cicatrização, ajudando a controlar a infecção e a criar melhores condições para cicatrização e enxertos.